Saiba se a sua empresa tem uma boa maturidade de cultura de segurança na empresa. Nestor W Neto explica como medir.
Por: Nestow W Neto
Sua empresa pode estar cumprindo todas as exigências legais, entregando EPIs, realizando treinamentos e ainda assim ter uma cultura de segurança extremamente frágil.
Parece contraditório, mas essa é a realidade de muitas organizações.
Por isso, medir a maturidade da cultura de segurança se tornou fundamental.
O que significa maturidade da cultura de segurança?
Cultura de segurança representa a forma como as pessoas pensam, decidem e agem em relação aos riscos presentes no trabalho.
A definição de cultura de segurança que mais gosto é a que diz que cultura de segurança é as “percepções dos eventos, práticas e procedimentos, bem como do tipo de comportamento que são recompensados, apoiados e esperados em um ambiente organizacional específico” (Schneider, 1990).
Quando falamos em maturidade, estamos avaliando em qual estágio a organização se encontra.
Um dos modelos mais conhecidos é o de Patrick Hudson que inclusive serviu de base para a metodologia Hearts and Minds (Corações e Mentes), que divide a maturidade em cinco níveis:
- Patológico
A empresa só se preocupa com segurança quando ocorre um acidente ou quando existe risco de multa.
Pensamento predominante:
“Segurança é um problema do setor de SST.”
- Reativo
A organização começa a agir após acidentes e incidentes.
Pensamento predominante:
“Precisamos agir porque algo deu errado.”
- Calculativo (também conhecido como burocrático)
A empresa cria processos, procedimentos e indicadores.
Pensamento predominante:
“Se controlarmos tudo, teremos segurança.”
- Proativo
As lideranças e trabalhadores antecipam riscos antes que os problemas aconteçam.
Pensamento predominante:
“Vamos prevenir antes que ocorra.”
- Generativo (também conhecido como sustentável)
A segurança passa a fazer parte da identidade organizacional.
Pensamento predominante:
“Segurança é um valor, não uma obrigação.”
Como medir a maturidade de cultura de segurança na prática?
A avaliação precisa ir além da taxa de acidentes. Existem várias formas eficientes de medir, desde a forma mais baseada em métodos, que é o que utilizamos na nossa consultoria, como a forma mais subjetiva, superficial, mas que ainda assim pode surtir excelentes resultados.
Na forma mais metodológica, para diagnosticar cultura de segurança, avaliamos os documentos de SST da empresa, como regras de segurança, normas de segurança interna, atas de CIPA, a forma como a empresa procede a investigação de acidentes, como a empresa entende e lida com desvios comportamentais, PGR, mapa de risco e todos os outros documentos de SST que a empresa possuir.
Fazemos grupos focais com trabalhadores para entender como eles percebem segurança praticada pela empresa e quais são os pontos de melhoria. Fazemos visitas ao chão de fábrica, onde conversamos com trabalhadores e observamos as condições em que eles trabalham e como eles reagem à segurança do trabalho imposta pela organização. Conversamos com líderes em todos os níveis para entender quais são as crenças que as lideranças em seus vários níveis têm a respeito de saúde e segurança.
Outra forma mais subjetiva, mas ainda bastante útil, consiste em observar alguns indicadores, como:
- Participação dos líderes nos assuntos de SST
Observe:
- Os líderes sujam as mãos com SST (campanhas, DDS e Observações Comportamentais e outras coisas do tipo)? Ou deixam isso exclusivamente para o SESMT?
- Os líderes influenciam seus liderados a trabalhar de forma segura? Se sim, como isso ocorre na prática?
- Gestores participam das discussões de prevenção?
Os líderes moldam a cultura organizacional e a de segurança. Quanto maior a participação deles, mais madura tende a ser a cultura.
- 2. Participação dos trabalhadores nos assuntos de SST
Observe:
- Trabalhadores reportam desvios espontaneamente?
- Existe participação ativa em DDS?
- As pessoas sugerem melhorias?
Quanto maior a participação voluntária, mais madura tende a ser a cultura.
- 3. Qualidade dos relatos de quase acidentes
Empresas maduras normalmente não são aquelas que se orgulham apenas de longos períodos sem acidentes, mas sim aquelas que aprendem continuamente com pequenos erros, desvios e quase acidentes.
Um baixo número de relatos pode indicar medo ou falta de confiança no sistema. Alto número de relatos pode indicar disposição para aprender com as coisas que deram errado.
- Indicadores proativos versus reativos
Empresas imaturas normalmente acompanham apenas indicadores reativos, como:
Indicadores reativos:
- Taxa de frequência, taxa de gravidade, índice de avaliação de gravidade;
- Afastamentos por causa de acidentes;
- CAT emitidas.
Já as empresas mais maduras também investem tempo e energia em indicadores proativos, como por exemplo:
- Inspeções preventivas;
- Auditorias comportamentais;
- Participação em treinamentos;
- Observações de segurança;
- Itens executados x itens planejados;
- Cumprimento de planos de ação;
- Avaliação de eficácia das práticas de SST.
- Percepção de segurança psicológica
Um ponto cada vez mais importante.
Pergunte:
- Os trabalhadores sentem liberdade para reportar erros?
- Existe medo de punição ao comunicar falhas?
- As pessoas escondem incidentes?
Sem confiança, a cultura dificilmente evolui.
E esse tema conversa diretamente com a nova atualização da NR-01 e a crescente atenção aos fatores psicossociais.
Como a tecnologia ajuda nessa medição?
Fazer essa análise de forma manual costuma ser difícil.
Softwares especializados permitem acompanhar:
- Indicadores em tempo real;
- Registros de inspeções;
- Gestão de treinamentos;
- Acompanhamento de não conformidades;
- Auditorias internas;
- Histórico de ocorrências.
Ferramentas digitais ajudam a transformar percepção subjetiva em dados concretos.
É justamente nesse ponto que plataformas como o SOC ganham importância estratégica.
Conclusão
Com esse artigo você já tem uma base inicial para realizar uma avaliação preliminar da cultura de segurança da sua empresa. Empresas que desejam evoluir sua cultura de segurança precisam aprofundar esse diagnóstico e utilizar ferramentas que permitam acompanhar indicadores de forma contínua.
Cultura de segurança não pode ser medida apenas pela ausência de acidentes.
Empresas verdadeiramente maduras constroem ambientes onde:
- A liderança dá exemplo e pratica SST no dia a dia;
- As pessoas participam do tema SST sem medo porque acreditam no processo;
- Os eventos negativos e riscos são discutidos abertamente;
- A SST é preventiva e não reativa.
A pergunta que toda organização deveria fazer é simples, nossa empresa apenas cumpre exigências legais… ou realmente possui uma cultura de segurança madura?
Bibliografia
(Schneider, 1990) – A configural approach to the study of organizational climate and culture